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Por­tu­gal pro­duz milhões de bici­cle­tas por ano. E quase não as usa

Reportagem com Rosa Félix. Publicado por Diário de Notícias, em https://www.pressreader.com/portugal/jornal-de-noticias/20260606/281865830151161, a 06.06.2026.

Alexander Zvir

No Dia Mun­dial da Bici­cleta, os núme­ros são impi­e­do­sos: menos de 1% das des­lo­ca­ções urba­nas são fei­tas em bici­cleta, as metas naci­o­nais para 2025 não foram cum­pri­das e a sinis­tra­li­dade ciclista cres­ceu 52% desde 2019. Por­tu­gal é o maior pro­du­tor de bici­cle­tas da Europa – e um dos que menos investe para que os seus cida­dãos as usem. Nessa mesma tarde, o Governo apro­vava a Estra­té­gia Naci­o­nal de Segu­rança Rodo­vi­á­ria – Visão Zero 2030.

Adam Tran­ter che­gou ao Audi­tó­rio do Par­que dos Poe­tas, em Oei­ras, de cargo-bike com o filho. A via­gem cor­reu bem – até à Mar­gi­nal, onde o per­curso ciclá­vel sim­ples­mente acaba. Era o exem­plo per­feito para come­çar. Adam Tran­ter, antigo Cycling and Wal­king Com­mis­si­o­ner das West Mid­lands, no Reino Unido, e atual CEO da Fusion Media, resi­dente em Por­tu­gal, não pre­ci­sou de mais do que aquela via­gem para ilus­trar o pro­blema cen­tral da mobi­li­dade ciclá­vel em Por­tu­gal: redes com lacu­nas que com­pro­me­tem toda a lógica de rede. “Se cons­tru­ís­se­mos auto­es­tra­das como cons­tru­í­mos ciclo­vias, nin­guém as usava”.

As metas que não foram cum­pri­das

Rosa Félix, inves­ti­ga­dora do Ins­ti­tuto Supe­rior Téc­nico e do labo­ra­tó­rio U-Shift, pôs os núme­ros em cima da mesa. Em Lis­boa, metade de todas as des­lo­ca­cões são fei­tas de auto­mó­vel. Em Oei­ras, quase 70%. A bici­cleta repre­senta entre 0,5% e 0,6% das via­gens – ape­sar de dois ter­ços de todas as via­gens em Lis­boa terem menos de 5 km, dis­tân­cia facil­mente ciclá­vel. “Metade dos alu?oD 5o 1.º 4:4lo 49682 q 6D4ol2 56 auto­mó­vel. E essa cri­ança não desa­pa­rece: o pai vai con­ti­nuar depen­dente do carro para as outras via­gens do dia”.

A Estra­té­gia Naci­o­nal de Mobi­li­dade Ativa Ciclá­vel defi­nia 4% de via­gens em bici­cleta para 2025 e 10% para 2030. Rosa Félix foi direta: “2025 já pas­sou e estas metas não foram cla­ra­mente atin­gi­das. E as de 2030 tam­bém parece que não serão”. Para se per­ce­ber a escala do desa­fio: Lon­dres inves­tiu 10 anos a apos­tar em infra­es­tru­tura ciclá­vel e con­se­guiu aumen­tar a uti­li­za­ção em ape­nas 2%. A inves­ti­ga­dora recu­sou, porém, o fata­lismo. “Há um poten­cial gigante de pes­soas que gos­ta­riam de andar de bici­cleta e que não andam. São essas que deve­mos olhar – não ape­nas para quem

3 de junho, Dia Mun­dial da Bici­cleta, e Oei­ras rece­beu o Por­tu­gal Mobi Sum­mit para um debate que reu­niu inves­ti­ga­do­res, autar­cas, indus­tri­ais e o pre­si­dente da Auto­ri­dade Naci­o­nal de Segu­rança Rodo­vi­á­ria. O diag­nós­tico foi par­ti­lhado por todos: sabe-se o que é pre­ciso fazer. O que falta é a cora­gem – e o dinheiro – para o fazer.

já usa”.

Para iden­ti­fi­car esse poten­cial, o U-Shift desen­vol­veu o Biclar – fer­ra­menta online de apoio ao pla­ne­a­mento ciclá­vel, dis­po­ní­vel sem registo, cri­ada com a Uni­ver­si­dade de Leeds e os Trans­por­tes Metro­po­li­ta­nos de Lis­boa. Os cál­cu­los são expres­si­vos: atin­gir os 4% de meta impli­ca­ria 99 mil via­gens diá­rias com­bi­na­das de bici­cleta e trans­porte público; os 10% exi­gi­riam 238 mil, com redu­ção anual esti­mada entre 8.500 e 20.000 Eo?6l252D 56 COº 6BF:G2lente.

Sevi­lha, Paris e o mito do clima e das coli­nas

Adam Tran­ter ouviu os argu­men­tos habi­tu­ais e res­pon­deu com fac­tos. Lis­boa é dema­si­ado aci­den­tada? 75% das ruas têm incli­na­ção infe­rior a 5% – facil­mente ciclá­veis, espe­ci­al­mente com bici­cleta elé­trica, e a Gira é 100% elé­trica. Dema­si­ado quente? Sevi­lha, mais quente do que Lis­boa, fez a pro­cura ciclá­vel sal­tar de 6.600 para 70.000 via­gens diá­rias depois de cons­truir uma rede coe­rente, com queda de 27% no uso do auto­mó­vel. Sem espaço? Paris redu­ziu o trân­sito em cerca de 50% atra­vés de rede­se­nho urbano, sem que o trá­fego se des­lo­casse para outras arté­rias. “Os car­ros são mais como gás do que como água. Quando se reduz o espaço, as pes­soas pro­cu­ram alter­na­ti­vas”.

Das 10 estra­té­gias com­pro­va­das que apre­sen­tou, Adam Tran­ter des­ta­cou come­çar pelas cri­an­ças como teste de qua­li­dade da infra­es­tru­tura. “Per­gunto sem­pre – dei­xa­ria um jovem de 12 anos cir­cu­lar aqui sozi­nho? Se a res­posta é não, a infra­es­tru­tura não está boa”. E sub­li­nhou o poder da “mai­o­ria silen­ci­osa”: as son­da­gens que con­du­ziu no Reino Unido mos­tra­ram que por cada pes­soa con­tra a infra­es­tru­tura ciclá­vel havia seis e meia a favor. “Os polí­ti­cos ouvem a mino­ria que escreve car­tas e igno­ram as famí­lias cujas vidas pode­riam melho­rar”.

O maior pro­du­tor que quase não usa o que faz

Por­tu­gal exporta mais de 800 milhões de euros em bici­cle­tas por ano – 90% do que pro­duz sai do país. É o maior pro­du­tor euro­peu, com uma indús­tria alta­mente auto­ma­ti­zada. O mer­cado interno é resi­dual. “Há aqui uma con­tra­di­ção”, admi­tiu David Macá­rio, secre­tá­rio-geral da Abi­mota, que enviou recen­te­mente uma mis­siva ao Governo a pedir alte­ra­ções ao Código da Estrada e a ofe­re­cer cola­bo­ra­ção téc­nica na defi­ni­ção de polí­ti­cas de mobi­li­dade suave. A mudança, para o diri­gente, passa pela edu­ca­ção e pelos incen­ti­vos fis­cais – nome­a­da­mente à com­pra de bici­cle­tas elé­tri­cas, cujos apo­ios públi­cos “esgo­tam em horas” quando são lan­ça­dos.

Rita Cas­tel’Branco, arqui­teta e mem­bro do grupo de tra­ba­lho da MUBI Lis­boa, colo­cou o pro­blema em ter­mos eco­nó­mi­cos: Por­tu­gal gasta 7,2% do PIB nas exter­na­li­da­des do trans­porte – o segundo país da Europa com maior peso des­sas exter­na­li­da­des. Um auto­mó­vel custa entre 600 e 800 euros men­sais a uma famí­lia por­tu­guesa. “Há mui­tas pes­soas que tra­ba­lham metade do mês para pagar um carro – não por­que que­rem, mas por­que não têm alter­na­tiva”. Cada pes­soa que muda do carro para a bici­cleta poupa ao Estado cerca de 1.300 euros por ano.

O con­traste com o inves­ti­mento público em infra­es­tru­tura ciclá­vel é gri­tante: Por­tu­gal investe 30 cên­ti­mos por pes­soa por ano. A Ale­ma­nha e a Holanda inves­tem 30 euros – cem vezes mais. “Somos bons a assi­nar com­pro­mis­sos e a fazer estra­té­gias”, disse Rita Cas­tel’Branco, acres­cen­tando que, no entanto, “depois dei­xamo-las des­pi­das de verba”.

Oei­ras quer 90 km de ciclo­via. Lis­boa investe 2,5 milhões numa nova app da Gira

Isal­tino Morais, pre­si­dente da Câmara Muni­ci­pal de Oei­ras, enqua­drou a mobi­li­dade ciclá­vel numa visão mais ampla. “O pro­blema da mobi­li­dade tem a ver com o poder de com­pra das pes­soas, com o con­forto, com a segu­rança, com as infra­es­tru­tu­ras. Os com­bo­ios da linha de Esto­ril há 70 anos não andam com uma car­ru­a­gem nova. Como é que a pes­soa tem con­forto?”. O obje­tivo de Oei­ras é pas­sar dos atu­ais 20 km para 90 km de ciclo­via, tendo o novo BRT entre Paço de Arcos e Algés como eixo estru­tu­rante – pro­jeto de cerca de 100 milhões de euros cujo con­curso público poderá ser lan­çado ainda este ano.

Em Lis­boa, a Gira tem mais de 2.200 bici­cle­tas elé­tri­cas, está pre­sente em todas as fre­gue­sias, ultra­passa os 150 mil uti­li­za­do­res regis­ta­dos e faz em média 9.000 via­gens por dia – muito acima das 40 mil para as quais o sis­tema foi ori­gi­nal­mente dese­nhado. Car­los Silva, pre­si­dente da EMEL, anun­cia uma trans­for­ma­ção pro­funda: uma nova apli­ca­ção com inves­ti­mento de cerca de 2,5 milhões de euros, pre­vista para julho, que pro­mete uma expe­ri­ên­cia “com­ple­ta­mente dife­rente” – mais fluida, com car­teira de paga­mento intui­tiva e sem login per­ma­nente. “A app atual tem oito anos e foi feita para 40 mil uti­li­za­do­res em 14 fre­gue­sias. Hoje temos 150 mil em 24 fre­gue­sias”, refere. O licen­ci­a­mento con­ti­nua a ser um estran­gu­la­mento – cada nova esta­ção demora em média dois anos e meio. E a inte­ro­pe­ra­bi­li­dade entre os sis­te­mas de bike-sha­ring da área metro­po­li­tana – Lis­boa, Oei­ras, Cas­cais, Sin­tra – con­ti­nua por resol­ver. “Não faz sen­tido um cida­dão de Oei­ras che­gar a Algés e ter de andar à pro­cura de outra bici­cleta por­que os sis­te­mas não falam entre si”.

Visão Zero 2030: “nenhuma morte pode ser con­si­de­rada acei­tá­vel”

Pedro Cle­mente, pre­si­dente da Auto­ri­dade Naci­o­nal de Segu­rança Rodo­vi­á­ria (ANSR), trouxe ao debate o número mais per­tur­ba­dor: entre 2019 e 2024, a viti­mi­za­ção de uti­li­za­do­res de bici­cleta cres­ceu 52,2%. Em 2024 regis­ta­ram-se 3.701 aci­den­tes com víti­mas ciclis­tas. Desde o iní­cio de 2026, ocor­re­ram mais de 63 mil aci­den­tes rodo­vi­á­rios, com 210 víti­mas mor­tais e mais de mil feri­dos gra­ves. Mas Pedro Cle­mente recu­sou tra­tar estes dados como esta­tís­tica. “O mais impor­tante que os núme­ros é que cada vida conta. Atrás de cada número está uma vida per­dida ou uma vida que ficou modi­fi­cada para sem­pre”.

Nessa mesma tarde, o Con­se­lho de Minis­tros apro­vava a Estra­té­gia

Naci­o­nal de Segu­rança Rodo­vi­á­ria – Visão Zero 2030. O docu­mento define como meta redu­zir em 50% as víti­mas mor­tais e feri­dos gra­ves até 2030, com hori­zonte de zero mor­tos até 2050. Baseia-se na abor­da­gem do Sis­tema Seguro – a ideia de que o erro humano é ine­vi­tá­vel, mas que o sis­tema rodo­vi­á­rio deve ser dese­nhado para que esses erros não tenham con­se­quên­cias fatais. Prevê um plano de ação bie­nal com medi­das finan­cei­ras con­cre­tas e arti­cu­la­ção entre a ANSR e as autar­quias. “Esta apro­va­ção cons­ti­tui um momento de par­ti­cu­lar sig­ni­fi­cado”, disse Pedro Cle­mente. “A Visão Zero 2030 é a mate­ri­a­li­za­ção de uma visão de futuro para a segu­rança rodo­vi­á­ria em Por­tu­gal”.

Pedro Cle­mente encer­rou o debate de manhã com uma nota sim­bó­lica: no domingo ante­rior, foi um dos pri­mei­ros ciclis­tas a atra­ves­sar ofi­ci­al­mente a Ponte 25 de Abril, nos 60 anos da estru­tura. “Era o único tipo de veí­culo que ainda não tinha atra­ves­sado ofi­ci­al­mente a ponte. As duas rodas tam­bém con­tam”.

A Holanda nem sem­pre andou de bici­cleta. Nos anos 70, Ams­ter­dão estava tão con­ges­ti­o­nada como qual­quer outra capi­tal euro­peia. O que mudou foi uma crise do petró­leo, uma vaga de mor­tes de cri­an­ças e uma deci­são polí­tica de mudar de para­digma. Rita Cas­tel’Branco recor­dou um dado que pou­cos conhe­cem: “Em 1950, na área metro­po­li­tana de Lis­boa, 40% dos veí­cu­los a entrar na cidade eram bici­cle­tas. Nós já fomos este país. A ques­tão é se que­re­mos vol­tar a sê-lo”.